quinta-feira, 29 de julho de 2010

Satisfação

“Forget your troubles
Come on get happy
You better chase all you cares away
Shout Halleluja
Come on get happy…
We're heading across the river
Wash your sins away in the tide
It's all so peaceful 
on the other side…”
(Jude Garland)


Desde criança eu sempre caí no estereótipo de parecer um “menininho” simplesmente porque eu sempre fui apaixonada por futebol, usava a barriga das “barbies” grávidas de catapulta para as bombas dos bonecos do “comando em ação”, normalmente em uma briga com meu irmão eu saia ganhando...

Quando tinha uns 10 anos resolvi que queria cortar o cabelo curtinho e na escola ganhei o apelido de “VO”, porque era mais ou menos o formato que o cabelo ficou com um corte, era um corte masculino, mas eu sinceramente não estava nem aí, e nesse tempo não pensava em mim como menina ou menina, mas apenas como uma criança que adora subir em árvores.

Por muito tempo fiquei com esse corte e como usava brinco em só uma orelha, muitas vezes de costas as pessoas falavam “que menininho mais lindo”, eu só olhava e começava a rir, não era algo que eu entendesse ou que eu me importasse.

Passaram-se os anos eu não pensava em ser ou não gay, eu simplesmente não pensava nisso. Meu primeiro beijo com um menino foi aos 16 anos, até então não tinha ficado com ninguém, tinha tido umas “quedinhas”. Mas hoje, pensando bem, percebo que todas essas “quedinhas” eram pelos meninos que todas as meninas do colégio tinham uma “quedinha”, não me considero uma pessoa influenciável, mas imagino que isso foi algo inconsciente, algo que eu fiz para reprimir, para esconder de mim que eu simplesmente não me interessava por menino nenhum. Então eu mentia pra mim, e depois pra minhas amigas, dizendo que eu também achava eles lindinhos e que adoraria ficar com eles (MENTIRA).

Com o tempo começou aquela pressão para dar o primeiro beijo... para ter o primeiro namorado... todo mundo já tinha tido, menos eu... blá blá blá... Essa pressão eram de “amigas” não de família ou de minhas verdadeiras amigas. Acabei dando meu primeiro beijo... tive meu primeiro namorado (que era muitoooo meu amigo, e depois de um tempo nós dois percebemos que o que sentíamos era apenas amizade). Nesse meio tempo eu comecei a jogar em um time de futsal, e começamos a competir e a conhecer outras meninas de outros times. Eu não posso dizer como é fora da minha cidade e das cidades vizinhas a minha, mas lá, aquela velha história de que meninas que jogam futsal (futebol) são necessariamente gays, lá isso era  80% verdade, isso estou dizendo porque eu vivia nesse “mundo”... Eu me considerava o 20%, me considerava a “classe” das héteros que gostam de futebol.

Nesse tempo levei algumas cantadas, umas diretas outras indiretas e eu só respondia “foi mal, mas eu não sou...”, ou quando falavam brincando eu apenas dava risada. Eu escutei de MUITAS pessoas que sempre acharam que eu era gay, meninas que queriam ficar comigo e diziam que tinham certeza que eu era... Até então eu nunca tive interesse por nenhuma menina, assim como também não tinha por meninos... não aquele interesse de fazer o coração pular, de suar frio, de esperar loucamente uma ligação, escutar a voz ou apenas ver o sorriso...

Tudo isso eu apenas escrevia, escrevia que queria sentir.. tentar sentir isso pelo meu primeiro namorado, realmente me esforçava, e cheguei a achar que realmente sentia... mas não era isso.

Um dia chegando pra treinar em outro time que eu jogava (sem duplo sentidos hein?hehe não nesse momento...) eu vi duas meninas que eu sabia que eram namoradas, se beijando... eu já tinha visto na TV, mas não com aquela intensidade, não com aquele carinho, e por um segundo eu me permitir ter “inveja”, até que no segundo seguinte eu simplesmente reprimi... mas eu não conseguia parar de olhá-las. Passou-se o tempo... perdi minha virgindade... e foi simplesmente horrível! Não que tenha doído ou coisa do tipo, mas não foi o que eu esperava, não foi prazeroso, foi como uma tarefa a cumprir... Nada além disso, e com homens SEMPRE foi assim... eu fiz sexo algumas vezes com esse primeiro namorado e algumas vezes com o meu segundo namorado.. mas nunca eu pude dizer “UAU...”, nunca! E eu achava que o problema era comigo, ficava pensando que eu não conseguia ter um orgasmo porque não sabia fazer, ou porque era frígida. 

Passei no vestibular, fui morar em outra cidade (cidade pequena), com novos amigos... Em 2006 fui para um congresso em Floripa, e foi lá a primeira vez que eu percebi que estava atraída por uma mulher. Estava eu, uma amiga e um amigo bebendo em um bar e a garçonete (uma menina ruiva muito bonita) que estava atendendo a gente, estava sendo muito simpática comigo e ficava me olhando de longe... deu pra perceber um “tratamento especial”, nisso meu amigo disse “Hey, ela esta dando em cima de você” e eu falei “que nada, ta doido é? Oxe...”. Mas isso mexeu comigo, eu comecei a olhar pra ela, mas disfarçando pra que meus amigos não percebessem, nesse dia eu pensei “se eu estivesse aqui sozinha e se ela realmente estivesse dando em cima de mim, eu ficaria com ela!”.

Porém fomos embora, eu não fiquei com ela, e reprimi meus pensamentos, novamente eu ME reprimir.

No início de 2008 quando estava em casa de férias, eu estava assistindo Cold Case e quando acabou me levantei para beber água e quando voltei estava passando outro seriado.. TLW...eu fiquei fascinada, ao mesmo tempo em que eu tinha medo que alguém passasse pela sala enquanto eu estava assistindo. Eu não conseguia desligar a TV. Foi o episódio em que a Marina conversa com a Jenny pela primeira vez, a conversa delas me fez sentir um arrepio, um frio na espinha... uma coisa... que eu nunca tinha sentido nem com um homem me tocando... Resultado... quando voltei das férias pra cidade onde eu fazia faculdade, eu tratei de começar a baixar todos os episódios e comecei a entrar em comunidades, mas ainda me “sentindo” a Hétero que assiste TLW e “não tem nenhum problema nisso...”. Hehehe. Realmente problema não tinha nenhum, mas eu não podia continuar me enganando, fingindo que não queria estar com uma mulher, não podia continuar fingindo que eu virava pra olhar quando uma mulher me interessava, não podia fingir que eu me interessava por MULHERES! 

Nesse meio tempo conheci duas pessoas muito especiais em minha vida, uma que por coincidência encontrei em uma comunidade de TLW e que já tinha jogado futsal comigo, mas morava na Suíça e que ao longo de várias conversas com ela, eu consegui começar a assumir pra MIM que eu queria estar com uma mulher, e outra que também conheci numa comunidade de TLW mas em outras circunstâncias... ficamos muito próximas, e conversar com ela também me ajudou bastante, no momento da minha total confusão sem entender, sem querer entender o que estava acontecendo comigo... ela me ajudou bastante... eu nunca fazia perguntas diretas porque tinha medo que ela percebesse que eu estava achando que não era hétero (ela era lésbica, mas mesmo assim eu não conseguia ficar à vontade para falar abertamente), ela entendia isso, e da mesma forma, conversava comigo de forma indireta, sem pressão, mas me ajudando bastante na minha fase de descobrimento. Essa minha amizade com ela, de minha parte, se transformou em algo maior, não se dizer hoje se foi uma paixão, se foi uma confusão de sentimentos.. não sei... sei que gostei dela, tentamos ficar juntas, mas por motivos diversos não deu certo. Independente disso eu ganhei uma ótima amiga, conversamos até hoje e lembramos com risadas o meu período de “descoberta”.

Quando eu “namorei” com essa amiga eu contei a alguns amigos que eu confiava que eu imaginava que teriam uma boa reação... e eu tive muita sorte com relação a isso, eu sempre vou agradecer muito por todos os amigos que entraram na minha vida, porque eles foram essencial nessa minha fase.

Eu ainda estava terminando a faculdade, quando uma coisa simplesmente incrível aconteceu na minha vida... No dia 14 de novembro... uma pessoa chegou na cidade para morar lá, no momento em que eu a vi descer do ônibus, eu pensei “essa mulher vai ser minha”, eu não sabia se ela era gay ou se não era, eu sei que eu me encantei com ela de uma forma como nunca tinha acontecido.

Todo o nosso período de conquista, de saber se ela era, dela saber se eu era... foram muitos momentos maravilhosos que passamos, nós duas deitadas vendo filmes, aquela tensão no ar, as duas com vontade de se beijar, de sentir o cheiro uma da outra... mas ela tinha medo e eu também.. não os mesmos medos. Eu tinha medo de não “saber” ficar com uma mulher, ela tinha medo deu ser hetero e ela estar interpretando errado. Esse período foi angustiante, porque eu queria muito estar perto dela a todo momento, eu queria aquela mulher nos meus braços (mesmo achando que eu não sabia como fazer isso), ficamos umas duas semanas dessa forma, até que começamos a ficar mais íntimas fora da vista das pessoas, ela me passava mensagens (meu coração tocava um samba enredo cada vez que meu celular piscava), eu respondia...

Um dia estávamos indo dormir muito tarde após uma noite de filmes... tínhamos colocado os colchões na sala e estava eu, ela e uma amiga que dividia a casa comigo, minha amiga já tinha dormido e eu e ela queríamos continuar conversando, ficamos uma virada pra outra, nos olhando por um bom tempo, até que eu peguei meu cel e comecei a escrever msg e passava pra ela, e ela me respondia... é infantil eu sei... mas não podíamos conversar, e eu precisava dar um jeito dela saber o quanto eu me sentia atraída por ela, e assim que aconteceu... com uma resposta indireta dela, eu parei de pensar e simplesmente a beijei, e ela me beijou e ficamos nos beijando até eu ter que ir trabalhar (nessa época eu trabalhava das 5h as 13h), eu fui trabalhar sem ter dormido, mas nunca tinha me sentido tão viva, tão feliz, o sorriso não saiu do meu rosto o dia inteiro, eu esperava ansiosamente para vê-la, pra poder abraçá-la novamente...

Não vou me estender mais do que eu já fiz... Mas vale constar que a nossa primeira noite juntas, foi perfeita, tudo o que eu achava que nunca conseguiria sentir, eu senti de diversas formas diferentes e mais fortes do que eu podia imaginar que existisse. Dia 27 faz 1 ano e 8 meses que estamos juntas... felizes... e com milhões de planos. Passamos muitas coisas juntas, fases muito difíceis, fases maravilhosas, momentos em que choramos, momentos em que a face doía de tanto sorrir... tudo isso juntas! E é assim que quero continuar com ela! Eu nunca pensei que pudesse amar alguém dessa forma, eu nunca pensei como eu seria feliz em chegar em casa e olhar para aquele rostinho lindo, trabalhando no computador. 

Felizmente a minha família foi muito tranqüila com relação a isso. Contei primeiro a minha mãe (ela tem duas amigas que desde criança eu sei que são gays e que são casadas...) eu já imaginava que seria tranqüilo com ela, mas mesmo assim tive um medinho e a única coisa que ela me perguntou foi “Você está feliz?”. Ela adora minha namorada, meu pai eu contei um pouco depois mas ele também aceitou numa boa e disse que já imaginava que eu estivesse namorando com ela, meu irmão também foi tranqüilo. Eu realmente tive muita sorte com relação a minha família e meus amigos.

>> Helena, eu queria te parabenizar pela idéia deste blog! Realmente é ótimo, imagino que pra quem está passando o que eu já passei há um tempo atrás, poder ler esses depoimentos ajuda MUITO! Parabéns.

Carol

8 comentários:

Aninha aruen disse...

amei a sua história!! muito linda e que bom que está bem!!!!
muitas felicidades pra vcs!!!! bjs

Janaína Donzellini disse...

Nossa que Lindoo *-* Parabéns Meninas Adoreei *--*
Felicidades pra vocês!!!

Blog da Bisha disse...

Nossa....que lindo...lindo mesmo a história! Fiquei super Feliz...! Desejo a maior felicidade do mundo para vocês! Mega Beijos (Moderador BLOG DA BISHA!)

Lady Desdém disse...

=) Fico feliz que tenham gostado da minha história!! E espero que possa servir de ajuda pra algumas pessoas tb!

Desculpem por alguns erros de português... eu tenho a terrível mania de não reler o que eu escrevo hehe

beijos

Aninha aruen disse...

blog da bisha vc por aqui...que legal!! te adoro!! bjão!!!

Anônimo disse...

Isso de estar rodeada de indícios e insistir pra vc mesma na idéia de que vc é a minoria hétero daquele grupo... acho que tô passando por isso. Com aquela incerteza de são mesmo indícios, se não... Difícil saber!

Jule Webs disse...

muito linda a história. meu coração salta de alegria quando leio historias assim ...

Vivian disse...

Olá pessoas, eu sou a outra menina dessa história. Quando conheci Carolina foi uma loucura enebriante, o gosto do vinho mais delicioso que jamais experimentei em toda a minha vida...
Apesar de ter sido um rápido período de conquista, quando penso nesse tempo para mim parece que foi uma eternidade de troca de afeto e de olhares (muitos).
Ainda sou apaixonada por ela, imensamente, perdidamente.
No ano passado eu pedi Carolina em casamento e ela aceitou \0/ em dezembro desse ano teremos festa pessoas!

Ela é como o vôo de centenas borboletas de todas as cores que saem batendo as asas de dentro de mim!