quinta-feira, 20 de maio de 2010

Vida é caminho de escolhas!

Segue abaixo o depoimento da Joana*, de São Paulo.
Coloquei também o email que ela me passou, já que nele há também frases para ótimas reflexões!

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Bem, assumidamente sou recém chegada a este universo. Nem sempre me senti bem com meus sentimentos em relação as mulheres. Aceitá-los foi caminho que durou toda uma vida, e se completou recentemente aos meus 29 anos. Mas mesmo antes de me aceitar totalmente, nunca neguei-os. E os vivi intensamente em cada momento que surgiam. Meio receosamente, depois mais abertamente, até que resolvi mergulhar em mim mesma e nunca mais abrir mão de mim. Do que realmente gosto, do que realmente sou. E estou aqui, para falar que sou lésbica sim (embora não goste de estereótipos ou definições, e nem tenha nascido em Lesbo..rsrs), sempre fui e sempre serei. Porque o que sou, não deixa de o ser mesmo se eu o escondo. O que sou é, mesmo que eu não o diga. O que sou grita em mim  e me acompanha, mesmo que olho nenhum veja. Eu sou uma mulher que ama outras mulheres. E o AMOR apenas é. E é isso que importa, é isso que basta. AMAR. No mais, todos somos mais que uma face só... somos multiplos e únicos!

Minha história segue em anexo. Ahhh Helena, amo o sapatilhando. Sigo-o sempre!

Meu fraterno abraço!

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Tenho 31 anos e moro ainda com meus pais, apesar de ter uma estabilidade econômica. Sou professora concursada em SP.

Eis minha história:

Me aceitar, foi um processo longo. Sempre senti atração por mulheres. E no meu núcleo de amizades (todas heteros), era a “palhaça, com potencial lésbico”... Sempre gozei da vida... e minhas amigas sempre foram alvo do meu reprimido ser... descontava nelas toda a minha gana por mulheres... chamava-as de gostosas, dava-lhes selinho, apalpava-lhes a bunda, tudo em tom de gracinha e brincadeira... rsrs. Mas sempre que questionada seriamente, dizia apenas que as mulheres me agradavam sim, que talvez eu fosse bi, mas que não era lésbica. E assim fui dizendo tantas vezes que acabei acreditando.

Aos seis anos fui apaixonada pela minha melhor amiga, paixão que durou até os 9 anos e era retribuída com todo o carinho que poderíamos trocar. Porém, nos mudamos, e quando isso aconteceu, ela mudou o modo de me tratar. Terminaram as retribuições de carinhos. Ainda nos encontrávamos, permanecemos amigas. E um dia, aos meus 15 anos, ela me disse que o que eu sentia por ela era errado, que ela não partilhava desse sentimento e que era para eu esquecê-la. Quase morri. Nunca mais nos vimos. Fui levando a vida, até que aos 17 anos me apaixonei novamente. Uma colega de teatro. E um dia, após nossa apresentação, dei-lhe um beijo na boca. Ela retribuiu. E ficamos nessa por 1 ano e meio, até que um dia ela decidiu me esquecer, mas não sem antes me humilhar na frente de todo o grupo de teatro, lendo minhas poesias com tom de escárnio para todos, e cuspindo no chão à minha frente, dizendo ter nojo de “pessoas como eu”. Quase morri novamente. Aos 21, sai com uma garota que dizia gostar de mim. Queria mesmo era me usar, já que eu gastava tudo o que tinha e não tinha por ela. Demorou um ano para eu cair na real. Depois disso, fiquei com uns garotos. Decidi deixar as mulheres para lá.

Mas sem nunca deixar de lançar olhares, escrever poemas, desejá-las, freqüentar a Parada Gay (rezando para encontrar alguém..rsrs), acompanhar o uva na vulva, etc

Então aos 24 resolvi namorar um amigo meu, um grande amigo. E noivamos por 5 anos.

Sempre que saíamos com os amigos (eterna roda hétero), sentava junto dos homens para comentar as meninas que passavam... dávamos notas, ríamos juntos, e eu era admirada por eles por não pegar no pé do meu noivo, por fazer gracinhas sobre mulheres, e até falar para ele quando alguma estava dando mole, paquerando-o, etc... Quantos torcicolos tínhamos quando aquela menina gata passava... e eu era a primeira a dizer: nossa, viram que gata?!

Até que um dia, meu noivo e eu tivemos uma super discussão por conta disso. Porque eu sempre falava de mulheres, que eu tinha “torcicolo” por elas. Que ele não gostava disso. Enfim... discutimos, conversamos e como um grande amigo, ele me despertou ao perguntar: você vai se enganar até quando???

Não quis me enganar mais. Terminamos o noivado. Aos meus 29 anos. E apesar de tudo, sofri muito com o término. Hoje ainda somos grandes amigos. E foi ele quem me apoiou quando abertamente falei sobre mim aqui em casa. Contei após o término a todos os meus amigos, aos meus primos e pessoas queridas mais próximas de mim. Que não me estranharam, me aceitaram prontamente, uns com risadinhas dizendo: “bem que desconfiávamos que atrás daquele jeito seu havia realmente um forte interesse por mulheres”.

Falar para todos que eu amo mulheres foi tão natural que estranhei. Estranhei o quanto aquele receio inicial já não existia.

Talvez tenha sido fácil porque já não me preocupava o que os outros poderiam achar ou pensar de mim. Afinal, a vida é minha e sou eu a única responsável por minhas escolhas. O que teria a temer? Nada.

O único problema veio com meus pais. Que não aceitaram prontamente essa nova realidade. E talvez nunca aceitem. No começo fizeram escarcéu, fecharam a cara, se isolaram de mim. Depois resolveram fingir que nada havia mudado. Minha mãe, agora um pouco mais próxima, vez ou outra me pergunta a respeito, sem esperar que eu lhe dê as respostas. Mas se mostra um pouco mais aberta a uma possível aceitação.

Hoje, aos 31 anos, estou namorando uma mulher. Namoro a distância, que iniciou-se num site de relacionamento. Namoro nada fácil por estarmos longe uma da outra. Mas que nos faz muito bem. A gente se ama... e viver juntas é sonho que realizaremos em breve. Nos meus projetos, em mais um ano e meio no máximo.

Vida é caminho de escolhas. Eu escolho ser feliz e o sou. Não me importa a quantas andam o preconceito. Que ele existe é fato. E a saída é a coragem de se aceitar como você é. Sem medo de enfrentar os outros, o mundo, enfim... a saída é um outro caminho, que com iniciativas como a desse blog... construiremos trilhando-o juntos!


E viva a liberdade de escolha! Com total aceitação das consequências que há nessa tal liberdade! 

Joana*, 31 anos residente em SP

Um comentário:

Alice Carroll disse...

"Vida é caminho de escolhas. Eu escolho ser feliz e o sou. Não me importa a quantas andam o preconceito. Que ele existe é fato. E a saída é a coragem de se aceitar como você é."

Concordo plenamente!
Parabéns pelo blog! Beijos