quinta-feira, 15 de abril de 2010

Pequeno resumo da minha história.

Dizem que as crianças descobrem cedo sua sexualidade. Comigo não foi diferente. Lembro-me de quando tinha 4 ou 5 anos ainda na creche (rs), quando íamos eu e algumas amiguinhas da mesma idade e nos trancavamos no banheiro e nos beijavamos. Sério. Aconteceu com alguma de vocês? rsrs.

O tempo foi passando e completei 14 anos. Nessa época ficava com meninos, era inclusive a que mais ficava com garotos dentro da minha turma, formada por 5 amigas inseparáveis, eu assim pensava à época. Dentro desse grupinho tinha a melhor amiga, a melhor das melhores. Meu primeiro amor. Uma verdadeira confusão dentro de mim, pois renasceu o sentimento que estava adormecido desde minha tenra infância.
Me apaixonei perdidamente por essa pessoa, fazia absolutamente tudo por ela. Tudo mesmo. Quando ela começou a namorar um garoto da escola me desesperei. Cheguei ao ponto de inventar uma estória, dessas bem cabeludas, que só de pensar hoje fico com vergonha (hehehehe), para que ela terminasse o namoro com ele.

Lembro que ela vinha aqui pra minha casa, dormíamos na mesma cama, eu passava a noite inteira alisando os cabelos dela, desejando beijá-la, mas negava o sentimento. E acho até que ela retribuia os carinhos, mas sempre se dizia diag (expressão que os gays usam aqui em Fortaleza, não sei se usam Brasil afora) ou melhor, hétero. Até que um belo dia, já sufocada com tudo aquilo guardado só pra mim, resolvi entrar no Mirc (é o novo) em um canal lésbico aqui de Fortal. Me tremia tanto ao digitar, morrendo de medo de entrar no que pra mim era até então proibido, um tabu. Lá conheci meu primeiro amigo gay. Nos conhecemos no dia do encontro do canal. Ele abriu pra mim as janelas do " mundo gay". Isso foi no sábado. No domingo fui à praia, numa barraca gls com meus novos amigos.  Lá ganhei o primeiro beijo de uma menina. Noossaa..mistura de felicidade com nervosismo e sentimento de culpa. Essa pessoa acabou sendo a minha primeira namorada.

Quanto a minha melhor amiga aconteceu o seguinte: comecei a namorar essa garota da praia e contei pra ela (levou um susto, mas depois ficou curisosa ¬¬).  Na verdade, eu queria despertar nela ciúmes. Essa namorada era muito muito pegajosa e terminamos, na verdade eu amava outra (a minha melhor amiga).
Depois disso, eu e meu novo grupo de amigos gays criamos um canal no Mirc para que eu finalmente me declarasse para minha amiga. Chegou a noite em que eu fiz isso. Me declarei de corpo e alma, fiz um discurso lindo, disse que a amava e blá. Não recebi nada em troca, para não dizer que nada nada, a única coisa que ela fazia era me provocar ainda mais. Jurava que ia morrer mesmo com aquele sentimento de amar e não ser correspondida. Nunca ficamos e até hoje ela jura que é hetero (rs).

Nisso tudo, só um parêntese, minha mãe dizia " ahhh..essa fulana é uma sapatão!!", jamais a filha dela, e, com medo de uma possível relação que eu viesse a ter com A sapatão, me trocou de colégio no meio do terceiro ano! Foi o pior..huehe

Um belo dia, quando eu estava terminando o terceiro ano do ensino médio, resolvi ir DO NADA ao Centro Cultural Dragão do Mar. Simplesmente estava em casa sábado de noite e surgiu uma vontade de ir pra lá, um estalo (acredite em sua intuição). Interfonei para um amigo gay do prédio e fomos. Não me arrependo nunca de ter ido. Foi lá que conheci minha namorada, tinhamos 16 anos e hoje estamos com 22, há 6 anos juntas.

Passamos por muita coisa juntas, dentre elas as descobertas de nossas famílias. Aqui na minha casa foi bem complicado, minha mãe descobriu no finalzinho de 2008. Ela amava minha namorada (pensava que era só amiga) e eu inventava que tinha um namorado (o famoso amigo gay que faz a "linha") e sustentei essa estória por 4 anos!! Até que meu padrasto incutiu coisas na cabeça da minha mãe, e ela me perguntou sobre minha sexualidade e eu disse a verdade. Juro que se arrependimento matasse eu estava mortinha agora! Minha mãe simplesmente pirou. Se ajoelhava no chão, pendindo até pelo amor de Deus que eu saísse dessa vida de cão (palavras dela),me mostrava relatos de homossexuais que se "curaram" e me levou numa maldita psicóloga que rezou na minha cabeça! Essa criatura mandava eu repetir umas palavrinhas: " Querido anjinho num sei das quantas..me salve e num sei que"! (ahh me poupe..na época estava tão fragilizada por toda aquela confusão que eu nem reagi).
O fato é que minha vida tinha virado um inferno, mas ainda assim meu namoro continuou firme.

Quando eu digo que me arrependo de ter dito para minha mãe não é por sentir prazer em continuar mentido. É porque quando se tem 20 e poucos anos você ainda não tem gabarito, principalmente financeiro, para enfrentar o mundo. Infelizmente, você ainda depende muito dos pais. Então, muitas vezes, em vez de contar sobre sua sexualidade ser uma coisa positiva, se torna um verdadeiro pesadelo na sua vida. Proibem você de sair, querem saber sempre com quem você está e se é com "aquelazinha". 

Se teve uma coisa que eu aprendi nisso tudo foi a ter paciência e a pensar alto, sonhar grande. No final do ano termino meu curso de Direito, onde pretendo seguir carreira pública, na magistratura ou ministério público, estudo e luto muito para isso. No auge do meu desespero em 2008, ainda não tinha conquistado minha primeira vitória. Pouco tempo depois ela veio.


Passei no primeiro concurso da minha vida, mas ainda não é o que quero. Isso me deu certa liberdade e veio justo na hora em que eu mais precisava (nesse momento renovei minha crença em Deus e passei a amá-lo ainda mais, pois vi que ele não me renegava pelo fato de ser lésbica como minha mãe dizia que ele iria fazer..ele me ajudou. =~). 


Pois bem. Eu simplesmente dei tempo ao tempo. Tive calma, paciência e persistência. Não bato de frente com minha mãe, isso não vale a pena e desgasta minhas energias, que precisam ser empregadas em algo últil e não em discussões que não levam a nada (amo demais a minha mãe, só pra constar). Não a culpo por seus pensamentos e ideologias, simplesmente respeito seu tempo para que no futuro venha a me aceitar, ou não.

Quanto a minha namorada, apesar de termos 22 anos, temos um relacionamento super equilibrado e digo, confiança é tudo. Nós duas lutamos juntas para alcançarmos nossos objetivos (que são grandes) e já pensamos em constituir família, ter filhos, etc. Nós não saimos muito pra baladas, costumamos ir muito ao teatro e ao cinema. Isso ajuda bastante a manter um relacionamento. Niguém aguenta balada direto, só é bom de vez em quando.

Acredito que ser jovem não é sair por aí bebendo e ficando com todas (os). Pra tudo tem sua fase e a minha já passou, graças! A verdadeira felicidade, a meu ver, está no equilíbrio, procurando sempre elevar seu espiríto, cuidando da saúde, do intelecto e do amor. Creio que isso falta para muitos jovens, que procuram felicidade em coisas superficiais e nunca a encontram.


Na verdade, você tem que "mudar de vida" e estabelecer metas para que você cresça de forma sadia. Graças a Deus, à minha família (que querendo ou não é boa), à minha namorada (que sempre me apoiou) e ao meu esforço, venho descobrindo a fórmula para se viver bem e de forma equilibrada. A verdade é que eu sempre procurei conselhos e amizades que me levassem pra frente e pessoas que me acrescentassem algo. Quando eu percebia que o amigo era na verdade "amigo da onça" eu me afastava.

O certo é que a vida é repleta de coisas maravilhosas a gente só tem que procurar o melhor jeito de alcançá-las.

 Beijos.

* Raquel - Fortaleza/CE.

7 comentários:

Tânia disse...

Parabéns... Viver com classe é a melhor coisa do mundo... Se o mundo te oferece uma rosa, nunca aceite os espinhos, pq eles furam e machucam nosso coração... Boa Sorte as duas...

Anônimo disse...

Eu também beijava desde cedo e até os 5 anos beijei muitas amigas da minha mãe.Meu pai deixou de sair comigo por que eu apontava as mulheres na rua e dizia: olha aquela, pai que linda...rsrs.Lindo depoimento seu, boa sorte.

Aninha aruen disse...

muito interessante sua história...psicóloga que reza na cabeça, ninguem merece...seria comico se não fosse trágico...ainda bem que psicólogos de verdade não podem "curar gays".Que bom que superou isso.Boa sorte pra vc sempre!

Isa disse...

Que linda a sua história moça!
Felicidades!

Raíssa Biolcati disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
adriana disse...

Nossa adorei sua historia!! momentos dificeis hem agora tudo superando ou superando que a vida e assim casa dia com seu novo desafio...Bom obrigada pela coragem partilha isso nos da muit aforça...
Concordo com voce quando relata o fato de nao revelar ao pais compreendi, o fato da dependencia etc.... tudo seu tempo e cada pessoa e singular. Engraçado como tem pessoas com experiencias tao diversas e o sentimento o que se vive no interior lutas,medos, desilusoes etc podem ser semalhantes... bom desejo felicidades em toda parte de sua vida obrigada pelas palavras que nos ajudam muito..... felicidade Deus nao faz distinçao de ninguem. Nos Ama independentemte de cor raça sexo ou sermos homossexuais ou nao... bjs

Anônimo disse...

Estou vivendo uma historia que quando li esta me fez lembrar da minha. A familia da minha namorada descobriu sobre a gente e nao aceitam, nem nos vemos porque ela nao pode sair, ta sem telefone, computador sem nenhum tipo de comunicacao... nao nos vemos a 2 meses.. ta tudo complicado mas nao irei deixa-la. Estarei com ela em todos os problemas que enfrentar, estarei sempre ao seu lado. E concordo '' a vida e repleta de coisas maravilhosas a gente so tem que procurar o melhor jeito de alcanca-la''